sexta-feira, 2 de maio de 2014

A revista Placar e a naturalização do feminicídio no Brasil

À esquerda, a capa da revista Placar com Bruno, condenado pela morte de Eliza Samudio. À direita, a capa questiona o posicionamento da revista e entra em "defesa" de Eliza, morta aos 25 anos
A revista Placar do mês de abril trouxe na capa o goleiro Bruno, acusado e condenado pela morte de Eliza Samudio. O curioso é a edição estar defendendo o jogador, com cara de vítima, a manchete diz “Me deixem jogar”. A principal matéria da revista conta o cotidiano de Bruno na prisão onde ele afirma que não tem privilégios por ser jogador.
Mariana Serafini, Vermelho
A matéria causou revolta na internet e rapidamente grupos de ativistas feministas se mobilizaram. Uma “sugestão de capa” foi criada por Cynthia Beltrão e Rosiane Pacheco onde o destaque é para Eliza Samúdio, e a suposta manchete diz “Eu queria ter visto meu filho crescer”. O protesto criativo repercutiu positivamente nas redes sociais.
Para Elza Campos, coordenadora nacional da União Brasileira de Mulheres (UBM), o que a revista Placar fez ao trazer o goleiro Bruno na capa como uma vítima foi legitimar a violência contra a mulher. Segundo ela, isso não causa necessariamente espanto porque é uma atitude repercutida diariamente pela grande imprensa que constantemente inverte os valores ao vitimizar o criminoso e culpabilizar a vítima.

“A capa da Placar causa constrangimento às vítimas, principalmente constrangimento moral. Isso é reflexo de uma sociedade com pensamento patriarcal dominante onde as mulheres são culpabilizadas pela violência sofrida”, afirma Elza.
Elza alerta para o público ao qual a revista é destinada. “A Placar tem um papel importante com os homens que leem a revista. O que ela fez foi reforçar a violência simbólica”.
Para Elza, a emancipação, o empoderamento, e a libertação humana da mulher estão diretamente ligados ao debate em torno da democratização da mídia: “como trabalhamos estas questões se a mídia tem o poder de repassar o que ela quer e não necessariamente o que diz respeito à vida de milhares de mulheres trabalhadoras?”, questiona.
Ela classifica como grave a imprensa naturalizar o feminicídio da forma como a revista Placar fez ao trazer o goleiro Bruno na capa. A violência contra a mulher é uma questão latente e que apesar das mobilização de entidades e do próprio governo federal em defesa das mulheres, parece só aumentar. Entre 1980 e 2010, mais de 92 mil mulheres foram assassinadas. Destas, 43,7 mil na última década. Em dez anos a violência contra a mulher praticamente dobrou, em 2010, uma mulher era vítima de homicídio a cada 1 hora e 57 minutos, enquanto em 2001 a média era de 2 horas e 15 minutos.
O blog Blogueiras Feministas também publicou um artigo em repúdio à revista. “A capa da Placar com Bruno faz parte da normalidade de um país no qual quase metade dos homicídios de mulheres são cometidos por pessoas próximas, geralmente marido, namorado, amigo, filho, pai. A outra metade das mortes não é suficientemente estudada, como se a violência contra o gênero feminino fosse mais grave somente quando recebe o carimbo da ‘violência doméstica’”, diz a nota.
Relembre o caso
Em 2010 o goleiro Bruno Fernandes, ex-jogador do Flamengo, foi condenado há 22 anos de prisão, acusado como responsável pela morte de Eliza Samudio, a modelo de 25 anos com quem teve um filho em um relacionamento extraconjugal. Desde então ele cumpre a pena na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, Minas Gerais.
Segundo a polícia, o crime foi cometido porque Bruno não queria reconhecer a paternidade da criança. Ele foi julgado junto com quatro cúmplices que foram condenados a 15 anos de reclusão, cada um.

FONTE: REVISTA PLACAR

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